• Osteoporose Brasil

Fratura de quadril, como a da avó de Michelle Bolsonaro, traz risco de morte


13/08/19

Folha de S. Paulo/Site

Colunista: Cláudia Collucci


Fraturas de quadril em razão de quedas, como a que sofreu Maria Aparecida Firmo Ferreira, 78, avó da primeira-dama, Michelle Bolsonaro, são frequentes entre os idosos e motivo de grande preocupação entre os médicos porque estão associadas a um maior risco de morte.


Depois de dois dias aguardando atendimento deitada numa maca no corredor de um hospital na periferia do Distrito Federal, dona Maria conseguiu ser operada de urgência no último domingo (11), após a Folha revelar o seu drama no sábado (10). 


Outros pacientes seguem aguardando há semanas no mesmo corredor por uma cirurgia ortopédica. A situação, que se repete em vários hospitais públicos do país, deveria ter provocado indignação ao presidente Jair Bolsonaro (PSL). Mas o que o irritou foi o caso ter vindo a público. Chamou o repórter de "mané" e disse que a Folha tentava estragar o Dia dos Pais.


Assim como a avó de Michelle, milhares de pessoas aguardam há dias, meses e até anos em fila de espera por cirurgias. Nunca é tarde demais para lembrar que em maio último morreu o aposentado Carlos Augusto de Abreu e Silva, 69, que esperava havia nove anos por uma prótese de quadril no Into (Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia), no Rio. Segundo a Defensoria Pública, há 12 mil pessoas na fila de espera do instituto.


Aos 64 anos, Bolsonaro logo fará parte do grupo etário com maior risco de queda, principal causa das fraturas. A partir dos 65 anos, um em cada três idosos sofrerá pelo menos uma queda. Desse grupo, um em cada 20 terá uma fratura em razão da queda. Acima de 80 anos, a frequência é ainda maior: cerca de 40% caem a cada ano. As quedas respondem por mais de 60% das admissões de idosos em prontos-socorros. No Brasil, a estimativa é que ocorram cem mil de fraturas de quadril por ano.


Uma análise publicada no início deste ano pelo Consórcio sobre Saúde e Envelhecimento, uma colaboração de pesquisadores dos Estados Unidos e da Europa, mostra que, em pessoas acima de 60 anos, uma fratura na região do quadril eleva o risco de morte mesmo oito anos após o trauma, quando se imaginava que a recuperação já seria total.


Foram analisados oito estudos que, juntos, somam 122.808 voluntários, acompanhados por quase 13 anos. O primeiro resultado já é bem conhecido: houve um expressivo aumento na taxa de mortalidade por causas diversas no primeiro ano após a lesão. Pesquisas anteriores já haviam mostrado que a fratura do quadril é a lesão ortopédica que mais resulta em morte: 30% dos pacientes morrem nos primeiros seis meses após o trauma e há perda de autonomia em 50% dos casos.

A fratura e a cirurgia fazem com que o idoso precise ficar mais tempo deitado, aumentando as chances de adquirir infecções, como as pulmonares e as urinárias, distúrbios gastrintestinais, diminuição do fluxo de sangue nas veias, que leva à trombose venosa, e até à demência.


O surpreendente da análise, porém, foi a constatação de que a probabilidade de morrer permaneceu aumentada mesmo depois de oito anos da fratura (isso comparado a quem nunca fraturou o quadril).


Por que? Além de estar associada a infecções e doenças cardiovasculares, a fratura pode causar dor crônica, diminuir a mobilidade, aumentar o nível de dependência do paciente, o que pode levar à depressão. Outra razão é a de que as pessoas que já sofreram uma queda apresentam risco entre 60% e 70% mais elevado de cair mais uma vez no ano seguinte.


Por isso tudo, é importante falar sobre prevenção. Muitas fraturas são decorrentes da osteoporose, doença prevalente nos idosos e que pode ser manejada com medicações, alimentação adequada, exercícios e exposição ao sol.

Quedas também ocorrem por falta de equilíbrio. Quando levantamos, a nossa pressão arterial cai um pouco por causa da gravidade, mas logo volta ao normal. Nos idosos, esse controle fica mais lento e a pressão permanece baixa mais tempo. Isso pode causar tontura por falta de fluxo sanguíneo no cérebro e causar quedas. Levantar e caminhar devagar, além de fazer atividades físicas na busca por maior equilíbrio, são algumas das dicas.


Caso estivesse antenado aos reais problemas da saúde pública brasileira, que nós, jornalistas "manés”, mostramos todos os dias, o presidente poderia ter aproveitado o episódio para dizer o que pretende fazer para enfrentar esse cenário vergonhoso de corredores e leitos hospitalares lotados de pacientes aguardando cirurgias. Muitos dos quais, como o sr. Carlos, só encontrando alívio na morte. 

(*) Cláudia Collucci é Jornalista especializada em saúde, autora de “Quero ser mãe” e “Por que a gravidez não vem?”.





327 visualizações

Apoio:

Realização: